Hoje teve casamento de novo e eu tive um surto nervoso de raiva, mas ninguém viu. Só o meu namorado.
Não acho justo, já está todo mundo casando, feliz da vida, enquanto eu ainda estou feito uma monstra de Frankenstein, tendo que viver escondida.
Achei insuportável ver:
1o.) Os noivos. A foto deles na entrada do salão de reuniões da igreja, fotos muito bonitas, os dois muito fofos. É um tipo de felicidade que eu nem ouso sonhar. Pelo menos não agora.
2o.) Alguns irmãos de quem eu guardo ressentimentos - por eles serem o exemplo da vossa santidade, eu sempre sou comparada a eles durantes as sermões eu já levei: "Jessi, por quê você não pode ser que nem fulano ou ciclano??" ou "Jessi, olha o fulano/ciclano - como é temente a Deus! Que exemplo!"
E quando me encontro com eles na igreja, muitos deles me olham com cara de pena ou algo parecido, porque já faz tempo que não participo de nenhuma empreitada de evangelização e nem ando mais com eles. Odeio ser tratada assim. Odeio ar de beatice. Odeio que invadam a minha privacidade.
Ah, sim - filha da Dona Peng, eu também guardo ressentimento de você. Odiei ser comparada a você. O fato de você ter dito "sim, papai" e terminar o seu namoro com o Charles me rendeu uma bela comida no rabo.
A Bíblia fala pra gente não ter ressentimento dos irmãos, porque a gente deve amá-los com amor puro. Sinto muito, mas desse jeito fica complicado. Eu ainda não atingi o nirvana pra ter me anulado por completo.
3o.) Casais de namorados. Inclusive aqueles que me condenaram quando eu contei que eu tinha um namorado não-cristão. Alguns desses estão com namorado agora, claro, da igreja. Eu fiquei com muita raiva. Muita. Puta que o pariu, essa hipocrisia. Eles podem. Eu não.
4o.) A minha mãe, achando tudo normal. Que raiva. Me comparam aos filhos dos outros quando é pra dar lição de moral, que os outros são melhores que eu e blábláblá, mas quando os filhos dos outros fazem coisas que eles não aprovam, eles dizem que não ligam porque é o filho dos outros. Tipo, os filhos dos outros podem voltar mais tarde, mas eu não, porque eu sou filha dela. Contradição da porra. Se é pra comparar, compara tudo mesmo! Saco.
Daí aconteceu que a recepção após a cerimônia foi numa churrascaria. Eu não estava nenhum pouco feliz, sinto muito. Porque: hoje saí com o meu namorado só no tempo que eu tive à tarde pra ir na Cobasi e no Carrefour. A gente só se viu porque eu saí pra fazer compras! Não foi porque eu falei: "Olha, mãe. Eu vou ver o Daniel e volto mais tarde." Não. É sempre debaixo do medo. Sempre arranjando algum pretexto. Porra, que saco. E mais tarde sou obrigada a ver a felicidade dos outros. E vendo alguns outros que já me condenaram, partilhando da mesma felicidade. Olha - é demais pra uma pessoa só. Daí eu tive um surto nervoso de choro e saí por um momento do salão da churrascaria, liguei pro meu namorado, chorei, chorei, falei um monte, ele tentando me acalmar...
Assim meu coração vai pro brejo também. Porra, tava passando mal na churrascaria e ainda que tive que forçar uma cara boa porque eu não tenho direito de ficar triste. Quando eu fico triste, fico mal-humorada e seca. Daí, isso já dá margem pros meus pais se alvoroçarem e dizer que eu mudei, que desde que ando com o Daniel eu já não sou a mesma, que o diabo isso, o diabo aquilo. Caracas, como o diabo trabalha. Cadê Deus?
Pra finalizar, um trecho do livro do monstro de Frankenstein:
"(...) Seremos dois monstros, isolados do mundo, mas unidos e inofensivos, livres da angústia que me persegue. Oh, meu criador, faça-me feliz! Deixe-me ser grato por esse benefício! Deixe-me sentir que despertei a simpatia de um único ser humano! Não me negue esse pedido!"
Nesse ambiente que me rodeia, eu me sinto cada vez mais maldita.



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